05 março 2021

O Estrangeiro

Da segunda metade dos anos 60 até o final da década de 70 do século passado, os políticos que disputavam eleições na Capela eram sempre os mesmos. Era raro aparecer um nome novo para a disputa eleitoral. Quando acontecia, era alguém tutelado por algum coronel ou cacique local.

Geralmente o eleitor só conhecia pessoalmente os políticos locais. Via de regra, só se conhecia os candidatos a deputado federal e senador, através dos santinhos. A campanha destes nos municípios era feita por seus cabos eleitorais. Quando eleito, eles iam para Brasília no início do mandato e só voltavam para o estado quando perdiam o mandato ou quando morriam.

No início dos anos 70 vivíamos no Brasil a chegada da Contracultura. Era um movimento mundial que visava quebrar tabus e confrontar os padrões culturais que dominavam a sociedade naqueles tempos. Eram, geralmente jovens, descontentes com as regras estabelecidas por seus pais e pela ordem mundial vigente. É do ventre da Contracultura que nasce o movimento hippie, possivelmente, o seu mais representativo rebento. Jovens cabeludos, tendo como arma a rebeldia, ganharam as ruas, corações e mentes no mundo inteiro, empunhando bandeiras como o feminismo, o amor livre e a cultura da paz.

Essa onda influenciaria toda uma geração de jovens que, mesmo com muita alienação, incorporaria os símbolos daquele movimento. Cabelos compridos, dedos em V clamando por paz & amor, eles vestiam batas e pantalonas como farda e tinham o rock and roll como hino. Era a estética da flor e do amor.

Numa sociedade conservadora como a da Capela, no começo, poucos tinham coragem de aderir aquela nova onda. A exceção de alguns poucos jovens corajosos - revolucionários até – como Zé Euclides de Modeba, Malaquias de Seo Misael, mais um ou outro destemido, os demais adorariam, mas morriam de medo dos pais e da língua do povo caso deixassem o cabelo crescer, vestissem aquelas roupas coloridas, usassem pulseiras no punho, medalhão no pescoço e brinco na orelha.

- Filho meu não usa essas coisas – sentenciavam pais e mães assustados com o novo. Quem ousasse enfrentá-los correria o risco de ser deserdado e desterrado. Somente a partir dos meados dos anos 70, os conservadores arrefeceram e quase todo mundo aderiu àquela moda.

Foi nessas circunstâncias que em 1972 apareceu na Capela um rapaz chamado Possidônio. Vindo de São Paulo ele chegara à cidade em companhia do capelense Zé de Helena, que fora seu colega de trabalho numa produtora de eventos na capital bandeirante. Ninguém sabia nada sobre a vida pregressa de Possidônio, nem mesmo seu amigo Zé de Helena, mas ele caiu nas graças da grande maioria dos capelenses. Simpático, bom de papo, parecia um daqueles artistas que a TV mostrava.

Possidônio dominava vários ofícios. Era fotógrafo: fazia fotos de casamentos, batizados, eventos sociais e 3x4 para documentos. Projecionista no Cine Capela, tocava órgão na missa da Igreja da Matriz, fazia o cerimonial das festas de formatura e, nas horas vagas, vendia calça Lee. Era a calça dos hippies. Lee, uma marca de jeans fabricado nos Estados Unidos, era vendido no Brasil por meio de contrabando. As leis da ditadura proibiam exportação. Calça Lee virou febre e sonho de consumo na Capela, no Brasil e no mundo. Ninguém sabia como Possidônio fazia para obtê-las, mas seus clientes não se importavam com isso, o importante era estar na moda. Um determinado dia, o locutor que anunciava as atrações do circo de Pinga Fogo caiu doente e faltou ao trabalho. Chamaram Possidônio para fazer o serviço. Ele fez bem feito e acrescentou mais essa atividade em seu currículo. Em outras palavras, Possidônio se deu muito bem na Capela e era adorado por quase todos, ao contrário de Zé de Helena que não conseguindo trabalho em sua cidade voltou para São Paulo.

- A Capela é ótima madrasta, mas é uma péssima mãe – declarou um ressentido Zé de Helena ao embarcar de volta para o sul.

Havia também os que odiavam Possidônio. Especialmente os rapazes do Básico. Eram estudantes da Escola Técnica de Comércio Sagrado Coração de Jesus, que não aceitavam o sucesso de Possidônio com as moças e o chamavam, pejorativamente, de O Estrangeiro. Realmente as meninas não resistiam ao charme d’O Estrangeiro que era um Dom Juan e namorou quase todas elas. A gota d’água foi quando ele apareceu de mãos dadas e trocando “selinhos” com Débora no saguão do Cine Capela, antes da sessão de Love Story. Débora era colega, musa e a paixão platônica dos Rapazes do Básico. Nunca fora vista namorando ninguém, o que alimentava a esperança daqueles jovens. Aquelas cenas da paixão entre Débora e Possidônio no cinema marcaram o coração daquela geração de adolescentes como o ferro marca o couro do gado.   

1972 era um ano de eleições para prefeito e vereadores. Possidônio morava na Rua das Pedras onde era vizinho, parede de meia, do fazendeiro Maneca Monteiro. À noite, depois do jantar, costumavam bater longos papos na calçada. Seo Maneca, sentado numa cadeira de balanço, Possidônio, derreado numa preguiçosa, passavam em revista suas aventuras e desventuras de cada dia. Foi observando o quanto Maneca, apesar de rude, era um homem sábio, hábil nos negócios, autêntico e benquisto por todos que Possidônio passou a incentivá-lo a entrar para a política. O velho fazendeiro resistiu a princípio, mas a lábia de Possidônio foi aos poucos mexendo com a vaidade de Maneca, até que ele, finalmente, consentiu em ser candidato a vereador. Faltava apenas escolher o partido.

A rivalidade na política da Capela não fugia a regra da disputa no resto do país. Era Arena1 x Arena2, os dois, no entanto, aliados da Ditadura. Por fora, marcando posição e fazendo oposição aos demais, o MDB. Seo Maneca é aceito pelo líder da Arena2 e passa a compor a chapa de vereadores da legenda. Possidônio é seu assessor mais próximo e o responsável para “polir” a aspereza daquele homem agreste e quase inculto. Dessa forma Possidônio se revela o primeiro marqueteiro político de que se tem notícias.

Anunciada a candidatura de Maneca Monteiro, seus adversários logo cuidaram de inventar histórias que o desqualificavam. Faziam menção a sua bronquice. Numa delas, contavam que, viajando em sua Rural pela BR, rumo a uma de suas fazendas no norte de Minas, depois de ultrapassar vários caminhões com a frase Mantenha Distância escrita na carroceria, Seo Maneca teria comentado com Chico Tripa, seu motorista:

- Essa Manteiga de Estância deve ser muito boa.

O certo é que quanto mais seus opositores inventavam estórias depreciativas, mais crescia a popularidade do candidato Maneca Monteiro. Perspicaz, Possidônio observava tudo e explorava o que seu assessorado tinha de melhor. Enquanto os políticos em geral são dissimulados, manipuladores e oportunistas, Possidônio potencializava a autenticidade, sinceridade e a personalidade forte de seu candidato.

Um dos últimos comícios daquela campanha foi na Lagoa do Meio. O pátio da igreja estava lotado de gente que vinha de todos os cantos. Seo Maneca foi um dos primeiros candidatos anunciados pelo locutor Jorge Fonhem, para discursar. Depois de cuspir a pimenta do reino que mastigava para tirar o pigarro, Maneca, no melhor estilo Getúlio Vargas, começa sua oratória:

- Trabalhadores de mãos calosas, das Barracas! – Pálido como um cadáver, temendo a vaia do público, Possidônio grita lá do fundo do palanque:

- Não é Barracas, é Lagoa do Meio

- É tudo a mesma merda – dispara Maneca, em alto e bom som, sem conseguir conter o embalo de seu discurso.

  A plateia foi ao delírio. Uns aplaudiram o candidato achando graça de seu ato falho, outros por concordarem com sua assertiva. Enquanto isso, O Estrangeiro suspirou aliviado e certo da vitória eleitoral.

No dia 15 de novembro de 1972, um domingo, além do vereador Meneca, os capelenses elegeram Carlos Cabral o prefeito da cidade para um mandato que seria de apenas 2 anos. Porém, o fato mais marcante para mim, um garoto de 14 anos que ainda não votava, aconteceu longe dali. No Rio de Janeiro, o Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas sapecava um 6 a 0 no Flamengo no dia de seu aniversário. Um show de Jairzinho, Fischer e companhia com direito a gol de letra do Furacão da Copa. Em comemoração, bebi toda a batida de limão que havia na Lanchonete de Chico Arimatéia. Foi o meu primeiro porre oficial.

Pós eleições, além do prefeito Cabral, o nome mais aplaudido e comentado na cidade era o do “marqueteiro” Possidônio. Havia até quem defendesse sua candidatura a prefeito dali a dois anos. Entretanto, menos de um ano após as eleições, O Estrangeiro caiu em desgraça. A cabelereira Maria Rita, mais conhecida como Ritinha Matraca, descobriu por intermédio de uma cliente de seu salão recém chegada de São Paulo, que Possidônio era casado com uma portuguesa com quem tinha dois filhos.

A notícia estourou feito um buscapé em festa de São Pedro. Não seria nada demais fosse Possidônio apenas o marqueteiro, fotógrafo, locutor e a fama de bom moço que ele ganhou dos capelenses. O grande problema era o anel de noivado no anelar direito de Débora, os proclames para o casamento anunciados no Voz da Capela, jornal de Correinha e a barriguinha da musa apontando o terceiro mês de gestação. Possidônio não esperou para assistir seu cadafalso. Sumiu como chegou: de repente. Nunca mais se ouviu falar no Estrangeiro. Os Rapazes do Básico fizeram uma festa. 

5 comentários:

  1. Confesso que fiz uso do dicionário para saber o significado de cadafalso: Estrado alto onde se executavam os condenados à morte.
    Será que foi o fim da carreira do marqueteiro Possidônio?
    Belo conto, Silvio!
    Parabéns!
    José Augusto da Silva

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    1. Muito obrigado, Zé Augusto, por acompanhar e incentivar esse trabalho.
      Abraços

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Muito boa! Sinto-me dentro do cenário. Contemporâneo de Zé Euclides do Modeba e de Malaquias (Roberto Alves que cantava num conjunto de Estância?). Este teve um romance com Sheila até que ela fugiu com o palhaço do circo (rsrsrs)... Abraços!

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    1. Querido Valfran, é uma alegria imensa reencontrá-lo aqui. Você que conhece bem esse período histórico. Recomendo a leitura de "Lourival na Capela", o primeiro conto publicado também aqui no blog.
      Quanto a história de Sheila, daria um belo conto (rsrsrs).
      Um forte abraço, querido conterrâneo.

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