17 março 2021

Para Aracaju, Com Amor

Era ainda muito jovem quando aqui cheguei. Não pretendia ficar. Queria só estudar mais um pouco e voltar para a roça. Mexer com a terra, plantar e colher a vida calma do campo. Com saudades de casa subia no alto dos Capuchinhos e ficava a olhar a cidade. Olhando fui aos poucos descobrindo suas curvas, seus segredos, o contorno perfeito do seu belo rosto e ao sentir o cheiro de mangaba madura que exalava do seu corpo, me apaixonei.

Apaixonado, fui ficando. Morri de ciúmes quando vi o rio Sergipe, ousado, acariciar seu dorso. Quando a fúria de um vendaval enciumado descobriu o lençol do seu velho mercado, eu estava ali ao seu lado. Curtimos, bebemos e dançamos as tardes e noites eternas da nossa paixão nas retretas da Praça Fausto Cardoso, nos hi fi da Iara, nos embalos de sábado à noite na Aquários, Iemanjá e Tio Zé, nas batidas do Manequito e no escurinho do Vitória, do Aracaju, do Pálace, do Rio Branco. Ao som de Travolta e Tinha Charles, namorei as mocinhas nas festinhas discothèque e, ouvindo Waldick Soriano, amei as meninas de Tia Vanda.

No velho Batistão, empunhei a bandeira rubra do Mais Querido, compartilhei arquibancadas, dividi lágrimas de alegria nas vitórias e recebi abraços solidários dos vermelhinhos nas derrotas. Ao vestir o manto vermelho, adotei uma religião. Ergui um altar e ali coloquei meus deuses Ailton, Zé Pequeno, Naninho, Duda, Cipó, Rocha, Ricardo Alegria da Cidade, Giraldo, Onça e toda a geração de Sandoval, Elenilson e cia que operou o milagre da multiplicação dos títulos.

Aqui me fiz cidadão, idealizei um sonho e fui à luta. Fiz greve, lutei contra a ditadura, pela redemocratização do meu país e ainda luto pela consolidação da nossa tênue democracia. Aqui nasceram meus 05 filhos. Meu patrimônio mais caro. Foi aqui que encontrei uma princesa, filha das águas, trazida pela força dos mares verdes do Ceará, que fez do meu ninho um castelo, e o encheu de sorriso e alegria, iluminando minha alma, aquecendo o meu corpo e apaziguando o meu coração. 

Dessa forma, tal qual Ulisses em Ciclopes, fiquei preso por vontade a essa terra que Inácio Barbosa concebeu a partir da costela de um dos rios que habitavam esse paraíso em meio a araras e cajueiros. Como uma Jocasta, Aracaju encanta, seduz e apaixona seus filhos naturais e adotivos. Não há quem por aqui passe que não queira retornar um dia. Não há quem daqui saia, que não conte as horas de voltar.

Hoje, no seu aniversário de 166 anos, ao render minha homenagem, renovo meus sentimentos de carinho, afeto, orgulho e eterna paixão pela minha querida Aracaju.   


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