20 abril 2021

Das Kapital

Numa boquinha de noite, Frederico chama Karl e diz: man, prestenção, os cara tão armando pra cima de nóis. Observe a origem da família, da propriedade privada e, agora estão criando um negoço chamado Estado. Isso não me cheira bem. Tô achando que esse tal vai legitimar a acumulação de riquezas por meio de roubos e violência em nome dos malaco.

Karl foi pra casa encucado com aquele papo de Fred. Jenny o esperava no portão. Recebeu o esposo com um beijinho e duas saliências, mas Karl estava mais interessado no cuscuz com carne frita que Jenny havia preparado. Ansioso e com as tripas roncando, não via a hora de bater aquela massa côncava amarelada.

No dia seguinte Karl já nem foi mais trabalhar. Se enfurnou na biblioteca e começou a teorizar sobre aquela nova realidade. De vez em quando Jenny aparecia na porta de baby doll, se espreguiçando toda e ele nem xite. Só falava com Frederico e assim mesmo, pelo celular. Passou-se muito tempo até que Karl concluísse sua teoria, seus escritos, seus estudos.

A grosso modo, para Karl, o Estado, visto pelo viés classista e aspecto econômico, é o instrumento político da classe dominante para manter o domínio sobre a sociedade, ou seja, a organização política que visa a defesa dos detentores dos meios de produção, na função de concentrar toda a riqueza produzida em sacrifício da classe trabalhadora. Assim ele teoriza sobre a relação entre infraestrutura e superestrutura. O conjunto das relações de produção, a produção da vida material, a base econômica de toda a sociedade, representa a infraestrutura. Já o conjunto formado pelas instituições jurídicas, políticas e pela própria ideologia reinante em cada sociedade compõe a superestrutura e através dos dois, o processo de dominação.

Nem preciso dizer que essa teoria do Karl e Fred tacou fogo no cabaré capitalista. Imediatamente o Véio da Havan juntou seus amigos da Fiesp, mais os Faria Limers, marcaram um jantar à luz de velas com Bolsonaro e contrataram Max Weber, um professor de sociologia da USP, fundador do PSDB, para contestar e desqualificar as teses do socialismo cientifico. Weber que não é besta, contratou a famosa economista Miriam Leitão para palestrar sobre o atualíssimo Consenso de Washington. A finada Leda Nagle foi convocada às pressas e voltou das profundezas para fazer assessoria de imprensa. Esta tratou de articular algumas entrevistas importantes do sociólogo com os jornalistas Pedro Poligrafo Bial e Vera Escolha Difícil Magalhães. Com tanta gente boa atuando juntas, não foi difícil acabar com negócio de marxismo por essas bandas e é nesse ambiente que se dá o processo de escolha dos governantes aqui no Brasil.  

Karl e Frederico erraram quando não previram que o Brasil é outro patamar. Aqui não existe esse negócio de polarização. Luta de classes? Não. Isso é coisa de baderneiros, nós somos cordiais. Fla x Flu nem existe. O GRENAL mobiliza os gaúchos tanto quanto um Pelotas x Caxias. BA VI? É coisa que colocaram na sua cabeça. PSD x UDN, Emilinha x Marlene, tudo ficção. Nós odiamos polarizar.

Há uma galera aí querendo polarizar a política entre Direita x Esquerda. Não sei como farão. O Brasil é tão avançado nessa questão ideológica que por aqui nós nunca tivemos a Direita. O nosso espectro ideológico finda no Centrão. Observem que Centrão é mais que Centro. Cabe mais. Cabe tudo.

O Brasil é também um exemplo quando se trata de religião. Somos um dos maiores países cristãos do planeta, mas Jesus Cristo é questionado diariamente:

- Ain, Jesus, você não pode dar o peixe, tem que ensinar a pescar. Você, sei não.

          - Também, Jesus deu o pão e deu uma desaparecidinha... 

16 abril 2021

A Bodega de Tonho

Já era tarde da noite quando Antônio fechou vagarosamente uma por uma as três portas da bodega, deu a volta no balcão e entrou em casa. Já na sala, pendurou o molho de chaves no armador, colocou o chapéu de baeta em cima da cômoda e, com passos cansados, atravessou o imenso corredor até chegar ao terreiro dos fundos da casa. Levanta a cabeça, olha para o céu sem nuvens e estrelado, dá um profundo suspiro, abre os botões da camisa de mescla azul, deita numa rede estendida do pé direito ao braço da mangueira do quintal, tira do bolso um amassado maço de cigarros Continental sem filtro, acende um, dá uma longa tragada e voltando-se para Maria que debulhava fava sentada num tamborete embaixo do telheiro, profetiza:

- Amanhã vai chover -. Maria sorri baixinho com jeito de quem não acredita na profecia.  

Antônio não completara 40 anos, mas já tinha vivido muito. Rapazinho ainda se casou com Maria e se foi para São Paulo. Lá foi ajudante de caminhão, servente de pedreiro e operário na indústria química. Foi empregado da Rhodia, uma multinacional francesa instalada no ABC paulista. Não passava pela cabeça de Antônio viver o resto da vida longe da sua terra natal. Ele só queria ganhar algum dinheiro e voltar. Sonhava comprar um pedacinho de terra, criar gado, ter sua própria roça, ser seu próprio patrão e viver feliz com Maria.

Depois de quinze anos no Sul, juntou as tralhas, a mulher, o filho recém-nascido e partiu de volta para sua aldeia. Comprou uma pequena propriedade, algumas cabeças de gado, plantou uma roça e, com as sobras, botou uma bodega. Era a Bodega de Tonho. Antônio era conhecido de todos como Tonho, o filho de Cajuza.

A Bodega de Tonho ficava numa encruzilhada. A frente da casa dava para a estrada que vinha do Tabocal e ia até o Brejo. No oitão, tinha a estrada que ia para as Barracas. Única venda em toda aquela região de mais de trinta povoados, era uma espécie de entreposto que servia de apoio para comboieiros, carroceiros e viajantes.

Antônio vendia de um tudo em sua bodega. Querosene e pavio para candeeiros, sal, açúcar, farinha, rapaduras, sardinhas enlatadas, agulhas de coser, carretel de linha, cigarro de carteira, fumo de rolo, cachaça e um tanto de outras coisas que eram de serventia para os moradores daquele fim de mundo.

Os comboieiros que levavam açúcar do Engenho das Pedras e do Proveito para as feiras de Glória e Propriá, toda quarta feira fazia parada obrigatória na Bodega de Tonho. Apeavam os burros na manga ao lado e abasteciam seus alforjes e caçuás com jabá, farinha e rapadura para enfrentarem os longos dias de viagem. Naqueles tempos a jabá, tanto quanto o bacalhau, ainda eram comidas de pobre. Os fardos ficavam ali entre a prateleira dos de comer e o balcão das bebidas. De vez em quando um daqueles vaqueiros das fazendas próximas, num intervalo da lida, chegava a galope, amarrava seu cavalo no esteio do alpendre e adentrava a bodega para tomar uma limpa. Antônio pegava sua peixeira especialmente amolada e cortava um naco de jabá e oferecia ao cliente como tira-gosto.

Durante a semana os dias passavam lentos, mas aos domingos tudo se transformava naquele lugar. Os moradores daquelas comunidades eram todos trabalhadores rurais e pequenos produtores. Trabalhavam de sol a sol e todos os dias. Apenas o domingo para o sagrado descanso. Era o dia de encontrar os amigos, trocar ideias, espairecer numa boa conversa e até mesmo tomar uma. A bodega de Antônio era o melhor lugar para esse grande encontro.

Desde cedo as pessoas começavam a chegar. Elas vinham de todo lugar. Logo a encruzilhada estava cheia de gente. Vicente trazia uma cadeira, uma bacia com água, uma tesoura, uma máquina manual de cortar cabelo e improvisava uma barbearia em baixo da frondosa jaqueira ao lado da bodega. Homens e meninos faziam fila para um caprichado meio príncipe.

Sá Jovina, aos 80 anos ainda vinha andando segurando seu cajado desde a Cruz do Martim para comprar fumo de rolo. Ela, além de fumar cachimbo, mascava fumo. A negra Jovina nascera escrava numa senzala lá para as bandas da Lavagem. Era a sábia da comunidade. As pessoas faziam fila para que ela as benzesse. A rezadeira pegava três ramos de vassourinha e ia benzendo uma a uma as pessoas, contra quebranto, mau olhado, espinhela caída e outros males. De vez em quando trocava os ramos que, carregados, ficavam murchos. Em geral as pessoas saiam dali mais leves e com as forças renovadas. Era a fé transmitida pelas orações de Sá Jovina.

Lá do Murici vinham as filhas de Pedro Cirino com um catálogo nas mãos para vender perfumes da avon. Com seus vestidos rodados, três dedos abaixo dos joelhos, faziam suspirar os rapazes com seus cabelos ensopados de glostora. Eles ficavam estrategicamente sentados no barranco da estrada embaixo da pitombeira de seu Zuza para vê-las passar. Aos assobios e aos galanteios dos garotos, as moças respondiam com um empinar de queixo e um nem tunco de desprezo.

Beata de Mané Carreiro, Sá Joana, Dona Soledade traziam cartas de seus filhos que viviam em São Paulo para Maria lê-las. Era muito raro encontrar alguém em toda aquela região que soubesse ler ou assinar o próprio nome. Lá do Brejo chegava Raul montado em sua égua mavú. Raul tinha um rosto bexiguento, deformado por calombos esquisitos, mas compensava sua feiura com uma prosa encantadora e engraçada. Todos paravam para ouvi-lo. Nelito Borges dos Oiteiros, Zé de Juca da Cruz do Congo, Menês das Barracas, todos desciam até a Lagoa do Meio para o domingo de lazer na bodega.

Maneca Monteiro da Imbira, um dos poucos fazendeiros que apareciam no armazém, chamava a atenção de todos quando chegava em sua charrete. Além de novidade, aquele veículo do velho fazendeiro, movido a força de um cavalo era, junto com o Jipe de seo Dário do Janeiro e da Rural de Agnaldo do Papagaio, os únicos veículos de quatro rodas a transitar por aquelas estradas esburacadas. Maneca mal cumprimentava os presentes, comprava um galão de querosene e ia-se embora.   

Lá pelas três da tarde, sob aplausos, chegavam Durval de Laurentino e Jonas do Segredo. Eram violeiros e repentistas que improvisavam versos em ritmo de galope alagoano e catado de viola. A partir daí a farra não tinha hora para acabar.

Aquilo era cansativo e não rendia muito dinheiro, mas Antônio não almejava riqueza. Se contentava apenas com o suficiente para sustentar sua família com dignidade e alguma fartura, o que já era muita coisa.

Já passava da meia noite quando Maria balança a rede e acorda Antônio.

- Vamos prá cama que já está chuviscando.

- Eu não falei que ia chover? 


14 abril 2021

Essencial é a Vida

A Câmara dos Deputados aprovou ontem requerimento de urgência para o Projeto de Lei 5595/2020 que define a educação como serviço essencial.

Nossa, os nossos representantes finalmente reconhecem a importância da educação no Brasil, dirá o incauto. Sabe nada inocente. Os ditos cujos atendem ao lobby das escolas privadas, capitaneados pelo Movimento Escolas Abertas e entidades patronais que reúnem os donos de escolas e universidades privadas ao votarem a favor de uma medida que expõe seu filho morte.

O texto do PL torna essenciais as aulas presenciais na educação básica e no ensino superior nas redes pública e privada, inclusive durante a pandemia. Significa também mais uma pressão sobre os governadores e prefeitos que suspenderam aulas presenciais para conter o avanço da covid-19.

Para dar requintes de crueldade, o processo de aprovação pelos deputados, desse atentado a vida dos nossos filhos e dos profissionais da educação, tem início no mesmo dia em que foi publicado um estudo pela Rede de Educadores da Escola Pública (Repu) que demonstra que o índice de contaminação entre os professores da rede pública estadual foi quase o triplo da população na mesma faixa etária, entre 25 e 59 anos, em São Paulo (veja gráfico abaixo).

Além de tudo, esse projeto, como consequência, ataca o direito de greve. Não é à toa que a bancada do Lemann, vulgo RenovaBR, votou em peso a favor do PL. Essa malta odeia trabalhador organizado.

Dos deputados sergipanos, apenas João Daniel e Fábio Henrique votaram contra. A favor do risco de morte para nossas crianças e professores, votaram: Fábio Reis, Fábio Mitidieri, Laércio Oliveira, Gustinho Ribeiro, Bosco Costa.

Engraçado que quando se trata de mais recursos para a educação pública os nobres deputados não reconhecem sua essencialidade e estabelecem o teto de gastos, mas quando visa atender os interesses privados a educação vira essencial.

O tal projeto agora irá a votação no plenário da Câmara. Não podemos ficar de braços cruzados assistindo passivamente os deputados usarem nossa representação para interesses subalternos. Se os donos das escolas sabem fazer pressão, nós também sabemos. Pressione seu deputado. Faça ele entender que nada é mais essencial que a vida.


12 abril 2021

Um Golpe Continuado

Por não saber conviver com a democracia, a elite conservadora, classe dominante no Brasil, resolveu não aceitar o resultado das urnas que reelegeu Dilma Rousseff à presidência da república em 2014. A ordem da malta era apear Dilma da presidência e o PT do poder político. Para liderar essa cruzada a aristocracia nativa escolheu alguém com a sua cara: o escroque Aécio Neves. Formaram uma frente ampla - olha ela aí – com PSDB, Centrão, “grande imprensa”, com STF com tudo e golpearam a soberania do voto popular. Como não acharam nenhum ato de corrupção pela inquebrantável Rousseff, lhe acusaram de “pedaladas” no orçamento. Apenas comparem com os impunes crimes cometidos pelo presidente atual.

Naqueles tempos, esses criativos “fatos” eram contados pelas televisões como uma novela. E o brasileiro médio, ignorante, indigente e preguiçoso intelectual, viciado nos dramalhões Global, destilava sua estúpida indignação nos grupos de WhatsApp, nas páginas de Facebook e demais mídias sociais. A famigerada Lava a Jato transformava a vida dos petistas num autêntico Big Brother.

Telefones grampeados divulgavam a indignação de Dona Marisa em conversa com amigos e a plateia ignara, formada por doutores, gente de Deus que não perde uma missa ou culto religioso, cheia de ódio, pedia a morte da esposa do Lula. Chegaram ao desplante, a insolência de grampearem a presidente da República, numa conversa com um companheiro na qual ela tratava de convencê-lo a aceitar um cargo de ministro em seu governo. Crime dos crimes.

Não podia dar outra coisa. Veio o impeachment. Com ele cai a máscara de muitos que, outrora aliados, votaram contra a democracia em nome da pátria, da mãe e até da rapariga. Dentre estes, um bandido foi especialmente aplaudido ao votar em regozijo ao torturador Brilhante Ustra. Este criminoso, admirador de torturador, acabou presidente da república, com o beneplácito da mídia, o apoio dos abastados economicamente, e o voto dos abestados da ignara classe média.

O vampiro miliciano, no comando da nação, continua sedento por sangue humano. Já são mais de 350 mil brasileiros vítimas de sua voracidade assassina. E não está sozinho na sua sanha homicida. Conta com a passividade cúmplice da classe média, com a inacreditável lealdade devotada do povo cristão e a cumplicidade de uma maioria no Congresso formada por comparsas que, na maior desfaçatez, procuram protegê-lo de qualquer punição pelos crimes praticados diuturnamente.

Agora mesmo explode um áudio com uma conversa entre o Messias da Morte e o obscuro senador Jorge Kajuru, representante do Goiás. No referido áudio, vários crimes de responsabilidade e outros assaques são cometidos, em alto e bom som, diante da letargia e ouvidos moucos do distinto público.  Com a divulgação desse abjeto diálogo, revela-se a intenção espúria de outro senador, o representante de Sergipe, Alessandro Vieira. Ele mesmo. Aquele que se dizia palmatória do mundo.  Ao querer que a CPI abarque os governos estaduais e municipais, o senador Alessandro pratica diversionismo para impedir que as investigações revelem os crimes praticados por Messias Bolsonaro.

Engraçado é que o mesmo Alessandro, no início de seu mandato, reivindicou uma CPI denominada de Lava Toga e nela ele só queria investigar os tribunais superiores, excluindo as demais instâncias do judiciário. Contradição? O certo é que o distintivo de xerife do senador caiu. Não dá para enganar todo mundo o tempo todo. Até porque nem todo mundo gosta das novelas da Globo. Eu, por exemplo, prefiro os cowboys que retratam o velho oeste americano. Com eles eu aprendi muito sobre a vida. Na minha juventude assisti no velho Cine Capela, a mais de 300 filmes desses. Ali, nunca vi um xerife fazendo justiça. Ele era, via de regra, aliado do bandido. Quem fazia justiça era o mocinho e eu nunca o vi se aliar ao bandido.


09 abril 2021

Um Sonho Quase Real

Alto, forte, negro com traços indígena, cabelos ralos e finos, bigode amarelado pelo sarro do pé duro, Carlos era considerado o melhor trabalhador braçal daquelas redondezas desde o Tabocal até o Quem Dera. Tinha pouco apreço ao banho, daí ganhou o apelido de Barrão.

Passo ligeiro, espingarda de fecho no ombro, bagoga nos beiços, um bocó de encerado atravessado no peito e dentro dele, num dos compartimentos uma mochila de pano com farinha seca, duas bananas e uma tora de toucinho lhe serviriam de almoço. No outro, uma caixa de espoleta, uma cabaça de pólvora, uma mancheia de chumbinho, um pedaço de croá para servir de bucha, era o arsenal usado por Carlos para caçar nambu, perdiz, rolinha e outros bichos. A caminho do roçado, corria tudo por entre veredas dentro dos pastos, saltando riachos, pulando cercas e se misturando ao gado.

Conhecido de todos, Carlos Barrão andava nas vilas arrematando prendas em leilões, dançando forró e bebendo cachaça limpa fabricada nos muitos alambiques da região. Abria porteiras, cancelas e avançava sítios e fazendas adentro como se fossem suas propriedades, falando e pilheriando com todos, homens, mulheres e meninos, em troca recebia, sorrisos e aconchegos como boas-vindas.

Além dessa rotina, apenas duas festas eram capazes de mobilizar Carlos Barrão e todas as outras pessoas que ali viviam: a Festa de Nossa Senhora da Purificação, padroeira da Capela, todo dia 02 de fevereiro e as Eleições. Sim, as eleições eram um dia de festa para aquele povo.

Como era Ditadura no Brasil, só havia eleições para alguns poucos cargos e, nas cidades do interior, somente aconteciam de quatro em quatro anos.  Quando chegava o dia 15 de novembro era visível a excitação e a ansiedade que tomava conta de todos enquanto esperavam os veículos da justiça eleitoral que vinham buscá-los para votar. Naquele canto do mundo, era o único momento em que o Estado se fazia presente.

Muitos sequer esperavam esse transporte. Logo cedo arreavam seus cavalos e se mandavam para a cidade. Carlos era um dos primeiros a aparecer no centro do povoado, se exibindo montado num cavalo castanho. Analfabeto, Barrão jamais frequentou uma escola. Num tempo em que analfabeto não tinha o direito de votar, ele nunca deixou de ir a uma Festa das Eleições.

Chegava cedo na cidade, se dirigia à Rua do Riacho ali nos fundos do Grupo Novo onde morava seu primo Lô. No amplo quintal amarrava o cavalo no mourão da cocheira, colocava uma touceira de sempre verde pro animal remoer, desencilhava os arreios e saia a pés pela cidade procurando conversa e gastando o tempo até a hora do almoço. Os candidatos a prefeito para exibirem demonstração de força, matavam bois e faziam mesas fartas para seus eleitores. Assim, além de fidelizar o eleitor, monitorava seu voto. Valia tudo por um voto, mesmo que o eleitor, como Carlos Barrão, só tivesse a panca de eleitor.

Pose de eleitor, Barrão sabia fazer. Se aproximava do candidato, elogiava a campanha, dava opinião sobre como conquistar o voto indeciso e com isso chamava a atenção do politico que se interessava por ele prestando-lhe melhor atenção. E atenção era tudo que Carlos queria. Mesmo na Lagoa do Meio, a maioria das pessoas achava que ele realmente era eleitor. Aliás, até ele acreditava nisso.

Anos mais tarde uma emenda constitucional foi aprovada pelo Congresso Nacional dando direito aos analfabetos votarem. Quando soube disso Carlos não acreditou no portador da notícia. Botou a certidão de nascimento no bolso, selou seu cavalo e disparou pra Capela. Apeou o sendeiro na porta do cartório de Honorino que lhe confirmou a boa nova. Naquela mesma hora entregou seu registro e saiu de lá com o título na mão. Não se continha de emoção. Não precisava mais fazer de conta. Agora era um eleitor de verdade e só pensava na eleição que se aproximava.

Faltavam nove dias para as eleições de 1986. Barrão chegou da roça, sentou num cocho que servia de banco na varanda de seu chalé, acendeu um pacaio deu dois tragos e caiu. Corre, acode, chama a rezadeira... não tinha mais jeito. Passou o vento mal e o coitado nem teve tempo de gritar.

Carlos morreu de um infarto fulminante a poucos dias de realizar seu maior sonho. Votar. Ser um eleitor de verdade.


06 abril 2021

Vacina Para Todos Já!

Hoje eu recebi a primeira dose da vacina contra a COVID-19. Me deram uma previsão de 90 dias para tomar a segunda dose. Estou tranquilo? Não. Dizem que essas vacinas podem combater as variantes do vírus que já estão por aí, ok. Mas, sinceramente, com milhões de pessoas circulando por aí, susceptíveis ao vírus, quem pode garantir que uma nova cepa, mais resistente a atual vacina, não venha surgir? Surgindo, essa vacina que tomei hoje vira água.

Não adianta comemorar, achar que estou a caminho da salvação porque do jeito que vai ninguém estará a salvo. Vamos aos exemplos: Aracaju tem aproximadamente 650 mil habitantes, destes, pouco menos de 75 mil foram vacinados. Algo em torno de 11% apenas. Significa dizer que quase 90% dos Aracajuanos, a imensa maioria da população, ou estão internados nos hospitais, ou são contaminados/assintomáticos, ou estão vulneráveis a contaminação. Você acha mesmo que esses 11% de vacinados estarão a salvo?

As principais medidas para conter a voracidade do inimigo não foram tomadas a tempo por nossos governantes. Não tiveram sensibilidade nem vontade política para criarem auxílios assistenciais dignos que desse as condições para que os trabalhadores ficassem em casa sem o risco de passar fome. Não deram as condições de sobrevivência para os negócios dos pequenos e micro empresários e, talvez por causa disso, não tiveram coragem de decretar o lockdown necessário para salvar vidas.

Como lhes faltaram coragem e vontade política, que ao menos tivessem a atitude de comprar vacinas para imunizar a todos. Nem isso fizeram. As doses estão vindo a conta-gotas. Pasmem: estamos morrendo a ordem de 3 mil brasileiros por dia por uma doença contra a qual já existe vacina e ninguém prioriza comprá-las. Eu disse NINGUÉM.

Ontem li no jornal O Globo, que o Congresso - leia-se deputados e senadores - aprovaram as escondidas, após um acordo com o governo - leia-se Bolsonaro -, um mecanismo que permite liberar do orçamento de 2021, 7,3 BILHÕES de reais para suas bases eleitorais. Chamam esse instrumento de Transferências Especiais e, por esse meio, em 2021 já foram repassados 2 BILHÕES de reais em emendas individuais dos parlamentares. Já somam, portanto, 9 BILHÕES e 300 MILHÕES de reais para animar o eleitorado dos nossos representantes e assim garantir suas reeleições.

Sabem quantas vacinas daria para comprar com essa mixaria? Vamos fazer uma continha rápida. A vacina que tomei hoje, AstraZeneca, custa entre 16 e 20 reais a dose. Se pegássemos os 9 BILHÕES dos parlamentares e comprássemos a vacina a 20 reais, conseguiríamos adquirir 450 milhões de doses. O suficiente para aplicar as duas doses em todos os brasileiros de todas as idades.  

Por isso, fazer selfie na hora da vacina, gritar "viva isso", "morra aquilo", é bonitinho, mas insuficiente. O momento exige mais de nós. Temos que gritar para o mundo ouvir que estão nos matando. Vamos pressionar os deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidente, TODOS. Eles precisam saber que estamos de olho neles e não vamos aceitar calados essa matança. Queremos vacina para todos já.


02 abril 2021

O Menino Que Venceu o Destino

Filho único de Núbia e Juca Machado, Pedro foi criado com todo o rigor e cuidados para não ser um menino mole, mimoso, como costumam ser os filhos únicos. Seus pais não o queriam mofino. Naquele lugar de vidas duras, longe da civilização e das facilidades da modernidade, os moles não sobreviviam. Era preciso preparar o menino para cumprir o seu destino de roceiro.

Porém, o que mais chamava a atenção de todos no povoado era o fato de Núbia e Juca só terem um filho.

- Ela é maninha – diziam de Núbia.

- Ele é roncoio – especulavam sobre Juca

  Não era comum os casais daquela comunidade terem poucos filhos. Quem menos tinha, contava com mais de dez. Sem somar os que morriam no parto, por inanição ou quando passava o vento mal. Como não havia médico, nem nenhum método científico que pudesse diagnosticar as doenças, naquele sem fim só se morria de picada de cobra, barriga d’água e de vento mal. As outras doenças todas eram curadas pela reza e ou pelas ervas das benzedeiras. Os mais velhos diziam que a Jaracuçu, uma cobra venenosa, era tão letal que quando picava alguém, saia debaixo para o corpo não cair sem vida em cima dela. Barriga d’água matava mais lentamente. O doente ia emagrecendo, sem forças, definhando e, em contrapartida, a barriga crescendo, inchando até a morte. Descobriu-se alguns anos mais tarde que o que causava a barriga d’água era a esquistossomose. Um estudo feito pelo Sesp – Serviço Especial de Saúde Pública, hoje Funasa – mostrava que a Capela era rica em schistosoma mansoni e nas lagoas da Lagoa do Meio ficavam os maiores criatórios do protozoário de todo o planeta. Sempre soubemos que a Lagoa do Meio, um dia, seria reconhecida pela sua grandeza.

Vento mal era a doença que mais matava e aleijava. Um infarto fulminante, um derrame, um ataque de epilepsia... era o vento mal.

- Rapaz, Zeca Cego estava na bodega de Tonho jogando sinuca, de repente passou o vento e ele ficou uns 10 minutos no chão se batendo. Deu sorte não ter morrido – contava assustado, Dezinho Fofoca.

-  Soube de Zé Vaqueiro? Tava fazendo a barba, passou o vento e ele ficou com a boca torta.

Determinada a fazer do filho alguém na vida, Núbia fazia ouvidos moucos para as fofocas e especulações sobre sua família e tratava de botar o garoto na linha. Mas o garoto era danado, traquino, briguento. Todo dia, ao mesmo tempo em que cumpria com louvor seus deveres de estudante, ele aprontava alguma na escola. Mas as peraltices de Pedro não passavam em branco. Quando chegava em casa a surra de Núbia era certa.

Núbia era uma mulher austera, de temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Casou-se muito cedo e o sofrer da vida ensinou-lhe a andar pelos atalhos. Trabalhadeira, cuidava da casa com esmero, criava o filho com devoção e ainda ajudava Juca no roçado. Era a consciência da casa. Juca, seu marido, era comboieiro, passava dias em lombo de burros carregando açúcar e farinha para as distantes feiras de Glória e de Propriá.

  O indomável Pedro era o amigo que todos queriam por perto. Ganhou o apelido de Papagaio pelos palavrões que dizia e porque falava pelos cotovelos. Enquanto as outras crianças, tinham medo de subir para tirar aquela manga madura no olho da mangueira por causa do marimbondo que resolvera construir sua casa no galho próximo, Pedro Papagaio subia, tirava a manga e a casa de marimbondo. Quando os meninos iam caçar Nambu na mata do Cipó, a presença de Pedro era tão imprescindível quanto a baleadeira e o badoque. Afinal, não fosse ele, quem iria espantar as cobras?

Pedro Papagaio não era só força, músculos e boca suja. Ele também era cérebro. Muito inteligente, na escola tirava sempre as melhores notas e, invariavelmente, chegava ao final do ano com o primeiro lugar da turma. Quando Dona Virginia, a professora do povoado, vislumbrando um imenso potencial intelectual no garoto, sugeriu a Núbia e Juca que fizessem um esforço de mandar o menino para estudar o ginásio na cidade, eles entraram num terrível dilema. Enquanto o coração reagia em negação àquela proposta horrenda que apartava a cria de seus pais, o cérebro os chamavam a razão. Num tempo em que as crianças daquele lugar estudavam apenas o suficiente para assinar o nome, lê e escrever as cartas dos parentes que viviam em São Paulo, aprender as quatro operações da aritmética para fazer conta de tarefa e saber passar troco, a professora previu que Pedro poderia furar aquela bolha e “ter um futuro”.

Um futuro era tudo que Núbia almejava para o seu filho. Não queria para Pedro a vida que estava destinada a todos daquele mundo: o trabalho braçal. Roçar pastos, lavrar a terra, manejar o gado dos fazendeiros locais ou ser peão em São Paulo. A própria Núbia e seu marido Juca conheciam bem o sofrimento que eles e seus conterrâneos passaram quando um dia migraram para a cidade grande do sul. Daí a educação rigorosa, espartana, como ela criava seu herdeiro. Por isso que quando a professora Virginia levou a ideia de Pedro estudar na cidade, Núbia, apesar de saber o quanto lhe doeria se afastar de seu amado menino, pressentiu a oportunidade de ver o garoto vencer na vida e se livrar daquele destino que, em princípio, parecia estar-lhe reservado.

Depois de combinar com uma irmã que morava na Capela, Núbia decide por mandar seu filho para estudar na cidade. Decisão difícil. Daquelas que só se fazem por amor. Pedro tinha apenas 10 anos de idade. Muitas lágrimas na despedida e uma nova vida que se abria para aquele corajoso garoto.

Os primeiros dias de Pedro Papagaio na Capela foram solitários. De casa para o Grupo Escolar Coelho e Campos e de lá pra casa. Não dera tempo de formar novos amigos na escola nem na rua. Sua tia, com a responsabilidade de cuidar do filho alheio, tratava o menino com rédea curta. Até porque, sabia ela, o Pedro era danado demais. Como o tempo ajeita tudo, cinco semanas depois ele já jogava pinhão, bola de marraia e brincava de manja com as crianças da rua do Quiço onde morava. Daí para as peladas com bola de borracha na rua de piçarra em frente à salgadeira de Gilberto, foi um pulo. Logo, logo Pedro caiu nas graças dos colegas de pelada. Não porque fosse craque ou mesmo bom de bola, isso ele não era, mas porque era brabo demais. Não rejeitava uma boa briga de socos.

Naqueles tempos havia muita rivalidade entre as ruas. Os da Rua do Quiço não eram bem vindos no Lá Vem Um e vice-versa. Isso valia para as outras zonas, Rua do Riacho, Beco da Lama, Rua das Bananas, Baixinha, Gato Preto, Tamanduá, etc, etc. Quando os times destas zonas se confrontavam, o que menos importava era o placar da partida, mas quem ganhava na briga. No tapa. Todo jogo terminava em porrada e nesse esporte Pedro Papagaio era craque e, só por isso, titular absoluto do time da Rua do Quiço.

Apesar de tudo, contraditoriamente, Pedro também era terno, generoso, respeitoso e amigueiro. Os mais velhos o admiravam pela fineza, educação e civilidade como eram tratados por ele. Os da sua idade o respeitavam por sua lealdade e pela força de seu muque.

O tempo passou, Pedro cresceu e se formou. Essa era a meta estabelecida por Núbia. Fugir do eito, virar funcionário público ou do Banco do Brasil, garantir um bom salário e a certeza de uma boa aposentadoria. Antes mesmo de se formar ele fez concursos. Muitos concursos. Passou em quase todos. Passou num do Banco do Brasil, foi chamado para trabalhar no Tocantins quando este ainda pertencia a Goiás. Não aceitou. Era muito longe da Lagoa do Meio e da casa de Núbia. Também mediante concurso, Pedro foi trabalhar no Banco do Estado, uma agência da capital. Quando Pedro se formou em Direito, a Lagoa do Meio parou. Juca matou um garrote de quinze arroubas, comprou cinquenta engradados de cerveja, fora as bebidas quentes e deu uma festa para comemorar a vitória de Pedro sobre o destino.

- É o primeiro doutor nascido na Lagoa do Meio – gabava-se Juca.

A festa era para Pedro, mas a glória daquele momento era de Nubia. Ela não continha a emoção e não parava de agradecer aos céus por ver atendidas suas preces e, principalmente, seus esforços.

- Já posso morrer em paz, realizei meu sonho – confidenciava Núbia às amigas.

Pedro Papagaio foi bancário por 36 anos e se aposentou no ano passado.  Depois de três casamentos e meia dúzia de filhos e dois netos, Pedro já não vai mais a Lagoa do Meio.

- Não tenho mais nada lá, só as lembranças do passado – diz Pedro nostálgico.

No último Dia de Finados, ao visitar o túmulo dos meus pais no cemitério da Trindade, encontrei lá o velho Pedro Papagaio. Fazia tempo que não o via, quase não o reconheci. Cabelos brancos e ralos mal disfarçam a iminente calvície. Rugas no rosto magro e o olhar cansado fixo na carneira onde repousa os restos de Núbia, parece que o tempo começa a pesar para o querido amigo. Sem tirar os olhos do jazigo, Pedro me surpreende com uma pergunta:

- Você sente falta de sua mãe?

- Muita. Não há um único dia que eu não me lembre dela e nenhuma noite que não sonhe com seu sorriso e seus abraços – respondi.

O valente Pedro Papagaio, o menino destemido e corajoso companheiro nas aventuras da minha infância, me abraçou forte e desabou num convulsivo choro enquanto balbuciava a dor dilacerante que lhe sangrava a alma causada pela ausência de Núbia. Ali, naquele instante, dois homens idosos, cedem lugar a dois meninos que surgem do passado e se reencontram na dor para celebrarem com lágrimas a alegria de uma amizade que ficou guardada por longos anos num velho baú de prata.

Ficamos ali chorando até secar a última lágrima. Pedro suspirou, baixou mais uma vez o rosto para a cova de sua mãe, depois suspendeu os olhos para os céus por cima das torres da pequena capela no meio do cemitério, sentiu o sol forte arder-lhe as vistas, encolheu as pálpebras e pareceu sonhar. Aquele céu sem nuvem, aquele sol de verão. Solta outro suspiro. Quanta lembrança deve estar passando na tela de sua memória. Mais um abraço na despedida e a promessa de nos vermos com mais frequência depois que a pandemia passar.


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