16 abril 2021

A Bodega de Tonho

Já era tarde da noite quando Antônio fechou vagarosamente uma por uma as três portas da bodega, deu a volta no balcão e entrou em casa. Já na sala, pendurou o molho de chaves no armador, colocou o chapéu de baeta em cima da cômoda e, com passos cansados, atravessou o imenso corredor até chegar ao terreiro dos fundos da casa. Levanta a cabeça, olha para o céu sem nuvens e estrelado, dá um profundo suspiro, abre os botões da camisa de mescla azul, deita numa rede estendida do pé direito ao braço da mangueira do quintal, tira do bolso um amassado maço de cigarros Continental sem filtro, acende um, dá uma longa tragada e voltando-se para Maria que debulhava fava sentada num tamborete embaixo do telheiro, profetiza:

- Amanhã vai chover -. Maria sorri baixinho com jeito de quem não acredita na profecia.  

Antônio não completara 40 anos, mas já tinha vivido muito. Rapazinho ainda se casou com Maria e se foi para São Paulo. Lá foi ajudante de caminhão, servente de pedreiro e operário na indústria química. Foi empregado da Rhodia, uma multinacional francesa instalada no ABC paulista. Não passava pela cabeça de Antônio viver o resto da vida longe da sua terra natal. Ele só queria ganhar algum dinheiro e voltar. Sonhava comprar um pedacinho de terra, criar gado, ter sua própria roça, ser seu próprio patrão e viver feliz com Maria.

Depois de quinze anos no Sul, juntou as tralhas, a mulher, o filho recém-nascido e partiu de volta para sua aldeia. Comprou uma pequena propriedade, algumas cabeças de gado, plantou uma roça e, com as sobras, botou uma bodega. Era a Bodega de Tonho. Antônio era conhecido de todos como Tonho, o filho de Cajuza.

A Bodega de Tonho ficava numa encruzilhada. A frente da casa dava para a estrada que vinha do Tabocal e ia até o Brejo. No oitão, tinha a estrada que ia para as Barracas. Única venda em toda aquela região de mais de trinta povoados, era uma espécie de entreposto que servia de apoio para comboieiros, carroceiros e viajantes.

Antônio vendia de um tudo em sua bodega. Querosene e pavio para candeeiros, sal, açúcar, farinha, rapaduras, sardinhas enlatadas, agulhas de coser, carretel de linha, cigarro de carteira, fumo de rolo, cachaça e um tanto de outras coisas que eram de serventia para os moradores daquele fim de mundo.

Os comboieiros que levavam açúcar do Engenho das Pedras e do Proveito para as feiras de Glória e Propriá, toda quarta feira fazia parada obrigatória na Bodega de Tonho. Apeavam os burros na manga ao lado e abasteciam seus alforjes e caçuás com jabá, farinha e rapadura para enfrentarem os longos dias de viagem. Naqueles tempos a jabá, tanto quanto o bacalhau, ainda eram comidas de pobre. Os fardos ficavam ali entre a prateleira dos de comer e o balcão das bebidas. De vez em quando um daqueles vaqueiros das fazendas próximas, num intervalo da lida, chegava a galope, amarrava seu cavalo no esteio do alpendre e adentrava a bodega para tomar uma limpa. Antônio pegava sua peixeira especialmente amolada e cortava um naco de jabá e oferecia ao cliente como tira-gosto.

Durante a semana os dias passavam lentos, mas aos domingos tudo se transformava naquele lugar. Os moradores daquelas comunidades eram todos trabalhadores rurais e pequenos produtores. Trabalhavam de sol a sol e todos os dias. Apenas o domingo para o sagrado descanso. Era o dia de encontrar os amigos, trocar ideias, espairecer numa boa conversa e até mesmo tomar uma. A bodega de Antônio era o melhor lugar para esse grande encontro.

Desde cedo as pessoas começavam a chegar. Elas vinham de todo lugar. Logo a encruzilhada estava cheia de gente. Vicente trazia uma cadeira, uma bacia com água, uma tesoura, uma máquina manual de cortar cabelo e improvisava uma barbearia em baixo da frondosa jaqueira ao lado da bodega. Homens e meninos faziam fila para um caprichado meio príncipe.

Sá Jovina, aos 80 anos ainda vinha andando segurando seu cajado desde a Cruz do Martim para comprar fumo de rolo. Ela, além de fumar cachimbo, mascava fumo. A negra Jovina nascera escrava numa senzala lá para as bandas da Lavagem. Era a sábia da comunidade. As pessoas faziam fila para que ela as benzesse. A rezadeira pegava três ramos de vassourinha e ia benzendo uma a uma as pessoas, contra quebranto, mau olhado, espinhela caída e outros males. De vez em quando trocava os ramos que, carregados, ficavam murchos. Em geral as pessoas saiam dali mais leves e com as forças renovadas. Era a fé transmitida pelas orações de Sá Jovina.

Lá do Murici vinham as filhas de Pedro Cirino com um catálogo nas mãos para vender perfumes da avon. Com seus vestidos rodados, três dedos abaixo dos joelhos, faziam suspirar os rapazes com seus cabelos ensopados de glostora. Eles ficavam estrategicamente sentados no barranco da estrada embaixo da pitombeira de seu Zuza para vê-las passar. Aos assobios e aos galanteios dos garotos, as moças respondiam com um empinar de queixo e um nem tunco de desprezo.

Beata de Mané Carreiro, Sá Joana, Dona Soledade traziam cartas de seus filhos que viviam em São Paulo para Maria lê-las. Era muito raro encontrar alguém em toda aquela região que soubesse ler ou assinar o próprio nome. Lá do Brejo chegava Raul montado em sua égua mavú. Raul tinha um rosto bexiguento, deformado por calombos esquisitos, mas compensava sua feiura com uma prosa encantadora e engraçada. Todos paravam para ouvi-lo. Nelito Borges dos Oiteiros, Zé de Juca da Cruz do Congo, Menês das Barracas, todos desciam até a Lagoa do Meio para o domingo de lazer na bodega.

Maneca Monteiro da Imbira, um dos poucos fazendeiros que apareciam no armazém, chamava a atenção de todos quando chegava em sua charrete. Além de novidade, aquele veículo do velho fazendeiro, movido a força de um cavalo era, junto com o Jipe de seo Dário do Janeiro e da Rural de Agnaldo do Papagaio, os únicos veículos de quatro rodas a transitar por aquelas estradas esburacadas. Maneca mal cumprimentava os presentes, comprava um galão de querosene e ia-se embora.   

Lá pelas três da tarde, sob aplausos, chegavam Durval de Laurentino e Jonas do Segredo. Eram violeiros e repentistas que improvisavam versos em ritmo de galope alagoano e catado de viola. A partir daí a farra não tinha hora para acabar.

Aquilo era cansativo e não rendia muito dinheiro, mas Antônio não almejava riqueza. Se contentava apenas com o suficiente para sustentar sua família com dignidade e alguma fartura, o que já era muita coisa.

Já passava da meia noite quando Maria balança a rede e acorda Antônio.

- Vamos prá cama que já está chuviscando.

- Eu não falei que ia chover? 


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