15 novembro 2022

Popó, o revolucionário

 

Popó, é um velho amigo de infância na minha querida Capela. Possidônio Pereira da Cruz, filho de um rico fazendeiro lá das bandas do Cem Passos, desde menino já era um entusiasmado admirador da revolução russa e de outras insurreições ao redor do mundo.

Trotskista convicto e simpatizante de Bakunin, nunca vi Popó sem aquela boina, igual a do Che Guevara, ornamentando sua cabeça. Ele se autodenominava revolucionário e acreditava – ainda acredita - que a luta armada é a única forma de libertação do proletariado.

Enquanto as armas para a revolução não chegam, Popó precisa se virar. Depois de perder o pai fazendeiro para um derrame cerebral e a fazenda para o Banco do Brasil, o rebelde Popó conseguiu, através de um velho usineiro amigo da família, um cargo na burocracia do estado.

Estava ele tranquilo, birô abarrotado de papéis para arquivar, quando ouviu o chamado das ruas. Eram as denominadas “jornadas de junho” de 2013. Ainda tentei chamá-lo a razão:

- Popó, preste atenção, você não vê que esse é um movimento golpista? Uma tentativa de desacreditar o governo popular?

- Popular, Ésse Ésse? – é assim que Popó me chama – popular o quê, cara, onde já se viu um aumento de 0,20 centavos na passagem do ônibus? – continuou Popó em sua fúria revolucionária.

Certamente o bater do torturante carimbo durante os últimos longos anos embotou sua mente e sua capacidade de discernimento. O que importava para ele é que o povo houvera cansado de esperar pelas armas e tinha ido paras as ruas fazer a revolução, e esta deveria ser feita ali e agora, ainda que fosse no muque.

Quando Possidônio acordou era tarde. A tal revolução que ele ajudara a fazer tinha tirado a esquerda do poder e em seu lugar havia colocado a ultradireita fascista, que retiraria todos os direitos e conquistas da classe trabalhadora ao longo do tempo desde Getúlio Vargas. O neoliberalismo venceu e com a contribuição militante do revolucionário Popó. Envergonhado, sumiu. Seus parentes e nós, os amigos, chegamos a pensar que ele havia cometido suicídio.

Por isso minha surpresa ao vê-lo na passeata de Lula em Aracaju no segundo turno da eleição. De camisa vermelha, a velha boina de Che na cabeça, um sorriso cheio de esperança no rosto e um forte abraço de redenção.

Dalí fomos tomar uma cerveja, falar dos velhos tempos e dos que virão. Popó me pareceu mais realista. Acreditava que o momento exigia a somação de todos. Esquerdistas, sociais-democratas, democratas e avançando até ao que ele chamava de direita civilizada. Nesse ponto, eu que nem sou tão revolucionário assim, me arrepiei. Direita civilizada? Tá bom, que seja. Nos despedimos e seguimos na luta.

Depois de uma jornada heroica, Lula é eleito por mais de 60 milhões de brasileiros. Reverenciado pelo mundo inteiro, sua vitória simboliza um ambiente de paz e esperança para o Brasil e para o mundo. Socialistas, sociais-democratas, direita civilizada... todos comemoramos efusivamente.

15 dias depois da eleição de Lula e de um merecido descanso, vou ao Bar do Camilo tomar uma gelada com costela de porco assada, ainda em clima de comemoração da vitória, e lá encontro um infusado Popó.

- Tá vendo, Ésse Ésse, será que Lula não aprendeu nada?

- Mas o que houve, Popó? Que foi que Lula fez?

- Não lê a Folha não?

- Não.

- Ele foi pro Egito num avião de um empresário.

- Oxente, Popó, e tem avião que não seja de empresário?

- Não se faça de tonto, Ésse Ésse, ele foi de favor. Onde já se viu pedir favor a empresário?

- Ah, tá, entendi. Lula não pode ter amigo empresário e muito menos pedir uma carona a ele, né Popó? Pedir favor a empresário é uma regalia que só filho de fazendeiro que tem amigo usineiro possui, né amigo?

- Não entendi sua indireta, mas ele poderia ir num avião de carreira.

- Velho, são mais de 15h de viagem, com trocentas escalas. Além de muito cansativo para um senhor de 78 anos, havia outros riscos envolvidos. Você viu o que os patridiotas fizeram com os ministros do STF em NY? Iriam fazer a mesma coisa ou pior com Lula em todas as escalas, você duvida?

- Num avião da FAB então.

- Sério? Sob o comando do GSI do tal General Heleno que desejou sua morte outro dia? Aquele avião dos 39 kg de cocaína?

 - E aquela mulher dele, a Janja?

- Você quer dizer a companheira do Lula? O que tem ela?

- Onde já se viu uma primeira-dama metida daquelas? Participando da transição, dando entrevista pro Fantástico, vestida numa blusa caríssima... boa era a Marcela Temer que não abria a boca e era recatada e do lar.

- Popó, você é quem não aprende. Se o amigo continuar lendo, vendo e ouvindo, acriticamente, a velha imprensa burguesa vai cair na armadilha de novo. Assim você está, ainda que involuntariamente, ingerindo um veneno cujo efeito é fazer aflorar todo o preconceito de classe do qual você nunca se libertou, mesmo quando travestido de revolucionário.

Pensativo, tomei minha cerveja, comi uma costelinha e fui pra casa com a certeza de que para avançarmos no processo de reconstrução do Brasil teremos que enfrentar muitos adversários: os ultradireitistas, os conservadores e os esquerdistas vulneráveis as narrativas dos conservadores.


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